
O atual sistema de publicação baseado em assinaturas de periódicos (paywalls) dificulta a apropriação e o conhecimento dos resultados das pesquisas pela sociedade, limitar o acesso aos resultados da pesquisa. Dessa forma, há um forte interesse em garantir o acesso aberto às descobertas de pesquisa em todas as áreas de conhecimento, por conta da relevância à sociedade, dos interesses de financiadores, da visibilidade dos próprios autores e das universidades onde atuam. O acesso aberto torna a pesquisa acadêmica publicada disponível on-line de forma gratuita e permanente. Muitos financiadores agora exigem a publicação em acesso aberto como condição para a concessão de recursos.
O acesso aberto é importante para a
abertura da pesquisa e sua comunicação
O acesso aberto não é apenas para que outras pessoas possam ler sua pesquisa sem barreiras. A maioria dos artigos em acesso aberto tem uma licença Creative Commons, que explica como outras pessoas podem usá-los. Em alguns casos, há total liberdade para reutilizar o trabalho publicado, não apenas acessá-lo. Independentemente disso, é sempre necessário reconhecer o autor original. É importante também distinguir acesso aberto de acesso livre. Nos sites de revistas, você pode encontrar alguns artigos rotulados como ‘acesso livre’. Esses são artigos publicados em revistas de assinatura, disponíveis para leitura de não assinantes. Às vezes, são páginas da revista que não são artigos de pesquisa completos. Ou o acesso gratuito é temporário e visa promover e atrair leitores, mas isso não os torna artigos em acesso aberto, pois não permitem reutilização por terceiros.
Você também deve ter ouvido falar do termo “pesquisa aberta”. A pesquisa aberta, também chamada de ‘ciência aberta’ tem como premissa tornar todo o ciclo de pesquisa aberto e acessível aos colegas acadêmicos, que podem se beneficiar e avançar mais rápido em suas atividades ao entenderem como o trabalho de outros foi desenvolvido. Isso pode incluir cadernos de laboratório, anotações, transcrições e dados de pesquisa.
Mas, compartilhar os resultados da pesquisa com o público não é apenas uma questão de disseminação do conhecimento. Também envolve responsabilidade, transparência, ética e garantia de reprodutibilidade. Embora os pesquisadores sejam obrigados a fornecer relatórios de progresso detalhados aos órgãos financiadores, a publicação em acesso aberto apresenta uma das poucas oportunidades para o público entender o impacto que o dinheiro público teve no avanço da pesquisa, incluindo a pesquisa médica. Ao limitar o acesso aos resultados da pesquisa, é mais difícil para a pesquisa cumprir suas obrigações e ser responsabilizada por aqueles cujo financiamento tornou possível [1].
A Universidade de São Paulo e o acesso aberto
Levantamento realizado na Base de dados de citações Web of Science (InCites) em agosto de 2020 revela que a USP está entre as Top 20 universidades que mais publicaram em acesso aberto entre 2015 e 2020, ocupando a 17ª colocação no contexto mundial, conforme Tabela a seguir.
InCites dataset updated Jul 29, 2020. Includes Web of Science content indexed through Jun 30, 2020.
Nesse sentido, observa-se que, ao longo do período de 2015 a 2020, o percentual de documentos em acesso aberto permaneceu próximo ao índice de 40% em relação ao total de documentos indexados na referida Base indexadora, como apresentado no Gráfico 1, a seguir.
Iniciativas na USP em relação ao Acesso Aberto
Diversas iniciativas institucionais de promoção do acesso aberto são desenvolvidas na USP, dentre os quais se destacam:
- Repositório da Produção da USP – A Biblioteca Digital da Produção Intelectual da Universidade de São Paulo (BDPI), inaugurada em 22 de outubro de 2012, é o Repositório institucional e oficial da produção intelectual (científica, artística, acadêmica e técnica) da USP, em consonância com a Política de Informação da Universidade definida na Resolução nº 6.444, de outubro de 2012. É um sistema de gestão e disseminação cujo objetivos são:
- Aumentar a visibilidade, acessibilidade e difusão dos resultados da atividade acadêmica e de pesquisa da USP por meio da coleta, organização e preservação em longo prazo.
- Facilitar a gestão e o acesso à informação sobre a produção intelectual da USP, por meio da oferta de indicadores confiáveis e validados.
- Integrar-se a um conjunto de iniciativas nacionais e internacionais, por meio de padrões e protocolos de integração qualificados e normalizados.
- Repositório de Dados Científicos – Os dados dos pesquisadores da USP (em qualquer formato) poderão ser publicados por meio de plataforma disponibilizada pela USP, que se responsabilizará pela sua segurança durante um período determinado de tempo. Além dos dados propriamente ditos, o pesquisador deverá disponibilizar metadados (descrição dos dados) a fim de facilitar sua compreensão e seu reuso. A USP disponibiliza a plataforma no link: https://uspdigital.usp.br/repositorio/.
- Descontos para autores USP – por meio de parcerias e afiliações a USP fornece descontos aos autores no pagamento de taxas de publicação de artigos. Desde 2012, a Universidade é membro da BioMed Central Springer Open, o que garante 25% de descontos nas taxas de publicação nas revistas da Editora. Outras parcerias garantem descontos menores, mas também significativos como, por exemplo, o desconto de 10% para publicação em revistas da MDPI e F1000.
- Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP – desde o início contou com equipe multidisciplinar para desenvolvimento e implantação em parceria com o projeto Networked Digital Library of Theses and Dissertations (NDLTD), a partir da customização do software de domínio público desenvolvido pela Virginia Tech (Virginia Polytechnic Institute and State University) para o gerenciamento e armazenamento de Teses e Dissertações Eletrônicas (TDE). O pacote foi adaptado ao contexto da USP, integrando-se com o sistema administrativo da Pós-Graduação e com o sistema DEDALUS (Banco de Dados Bibliográficos da USP, mantido Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica – AGUIA).
- Portal de Revistas da USP – trata-se de uma biblioteca eletrônica que publica revistas produzidas pela Universidade de São Paulo credenciadas pelo Programa de Apoio às Publicações Científicas Periódicas da USP. O programa, iniciado em 1986, é gerenciado pela Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica – AGUIA.
- Portal de Livros Abertos da USP – promove a reunião e divulgação dos livros digitais acadêmicos e científicos publicados em acesso aberto por docentes e/ou funcionários técnico-administrativos da Universidade de São Paulo.
- Biblioteca Digital de Trabalhos Acadêmicos da USP – proporciona à sociedade em geral o acesso ao texto completo dos Trabalhos de Conclusão de Curso da Universidade. Inclui em seu acervo: Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização (MBA), Trabalho de Conclusão de Residência (TCR) da Universidade de São Paulo. A BDTA atende à Resolução CoCEx-CoG Nº 7497, de 09 de abril de 2018, que “Regulamenta a disponibilização de trabalhos de conclusão de curso ou outros trabalhos acadêmicos equivalentes na Biblioteca Digital de Trabalhos Acadêmicos da Universidade de São Paulo”.
- Escritório de Comunicação Acadêmica da USP – Office of Scholarly Communication – tem como objetivos:
- Promover a ciência aberta e o acesso aberto na Universidade
- Gerir repositórios e sistemas abertos de publicação acadêmica
- Estabelecer diretrizes e procedimentos para registro e depósito da produção intelectual da USP
- Gerir serviços e produtos de apoio ao pesquisador
- Promover oportunidades de esclarecimento e capacitação da comunidade USP
- Manter, em conjunto com as Bibliotecas e autores da USP, o Repositório da Produção USP (ReP)
O Escritório, gerido pela Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (AGUIA), atua também no monitoramento de desenvolvimentos significativos na comunicação acadêmica em geral, a partir da análise de tópicos atuais e emergentes nessa área, incluindo: evolução dos modelos de publicação, métricas de impacto científico e social, ciência aberta, gerenciamento de licenças, direitos e acesso aberto, publicação e compartilhamento de dados científicos, transparência, integridade e reprodutibilidade.
O modelo de atuação do Escritório de Comunicação Acadêmica da USP é baseado em experiências semelhantes desenvolvidas em grandes universidades como o Office of Scholarly Communication da University of California e o Office of Scholarly Communication da Cambridge University.
Considerações finais
O debate sobre a comunicação científica, o acesso aberto e a pesquisa aberta deve incluir uma ampla gama de vozes públicas e uma ênfase no benefício público. À medida que avança a fronteira do acesso aberto, muito ainda pode ser feito para servir aos interesses públicos em termos de defesa, participação e atendimento às necessidades da ciência, dos pesquisadores, do meio ambiente e da sociedade. O esforço coletivo na direção da efetiva comunicação científica ‘aberta’, do acesso e da pesquisa aberta vão fazer a diferença nos próximos anos.
[1] DAY, Suzanne et al. “Open to the public: paywalls and the public rationale for open access medical research publishing.” Research involvement and engagement v. 6, n. 8, 28 Feb. 2020. Disponível em: http://www.doi.org/10.1186/s40900-020-0182-y Acesso em: 03 ago. 2020.
[2] STM. The STM Report An overview of scientific and scholarly publishing. Disponível em: https://www.stm-assoc.org/2018_10_04_STM_Report_2018.pdf Acesso em: 03 ago. 2020.
Como citar esta matéria:
DUDZIAK, Elisabeth Dudziak. Tendências mundiais em Comunicação científica, acesso e pesquisa aberta. Escritório de Comunicação Acadêmica da USP, 04 ago. 2020. Disponível em: https://www.acessoaberto.usp.br/tendencias-mundiais-em-comunicacao-cientifica-acesso-e-pesquisa-aberta/ Acesso em: